Dando o salto além: como superar seus medos viajando

Enfrentar os próprios medos viajando

Pode parecer um lugar inusitado para ter um ataque de pânico: o mar azul-celeste gentilmente batendo contra a popa de um pequeno barco com vidro no fundo, rodeado por turistas alegres, que deixam seus chinelos para trás enquanto pulam na água, enquanto o glorioso sol se põe, fazendo tudo ao redor brilhar como o paraíso.

Mas se eu fechar os meus olhos neste momento, eu consigo sentir a sensação que tive naquele barco assim que olhei para baixo e vi o turbilhão de água azul. Primeiro, opânico começa no meu estômago e então segue contornando até os meus dedos das mãos e dos pés e, finalmente até os meus olhos, onde formiga e ferroa.

Eu posso sentir a água sem mesmo entrar. Eu consigo senti-la todo ao meu redor, me puxando para baixo. Eu consigo sentir uma vertigem crescente enquanto meus pés procuram desesperadamente por algo para se firmar, apenas encontrando abaixo uma escuridão gélida. Eu consigo sentir o toque da água na minha boca, no meu nariz, nos meus olhos e nos meus pulmões e, consigo ver o barco me deixando para trás, sem recursos e sozinha.

Esta sou eu, em um barco na costa de agilidade Trawangan, na Indonésia, tendo percorrido milhares de quilômetros para experimentar novas coisas e enfrentar cara a cara meu mais profundo medo: o mar.

Escolhendo o caminho com mais resistência

Eu sempre tive a impressão que vivi minha vida com medo. Com a exceção do meu terror de afogamento, eu não sofri de nenhuma fobia paralisante, mas eu era a dona de milhões de pequenas neuroses que me impediram de fazer muitas coisas: medo de cobras, bactérias, trânsito, aranhas, insetos, parasitas, altura… eu poderia seguir adiante com a lista.

Mas o pior de tudo é que eu tinha medo de arriscar qualquer coisa na vida. Assim como muitas pessoas eu tinha escolhido o caminho fácil ao invés de enfrentar o desconhecido, da universidade para a minha carreira, eu escolhi o caminho com menor resistência. No fim, eu sentia que estava me corroendo por dentro – eu podia imaginar uma vida traçada na minha frente que não oferecia nenhuma surpresa.

E aí que em uma segunda-feira particularmente miserável e cinza – assim como uma sucessão de segundas-feiras miseráveis e cinzas – tudo mudou. Eu abri meu e-mail e recebi uma mensagem como título  intrigante “aventura em Borneo?”. Repentinamente, com minha curiosidade, despertou em mim um forte desejo por vitamina D, e eu li o e-mail com inusitada mente aberta.

O convite era para ajudar um amigo a construir um ecolodges na selva de Borneo. Infelizmente o projeto não decolou, mas o forte desejo que me impelia a fazer algo tão imprudente como viver na selva por três meses era uma epifania. Eu precisava sair. Do mundo corporativo, e acima de tudo, da minha confortável vida na bolha.

E então, em um espaço de duas semanas, eu larguei meu emprego, desisti do meu apartamento, vendi todos os meus pertences mundanos e comecei a implorar, emprestar e roubar dinheiro suficiente para fugir para a Ásia.

Faz cinco meses desde que desisti de tudo o que conheço, dei adeus aos meus amigos, família e cabelo alisado e, embarquei em um avião a fim de experimentar alguma coisa completamente diferente.

Mil minúsculos passos

Quando eu dei o meu primeiro passo fora do avião no calor excruciante de Kuala Lumpur, Eu estava prestes a explodir de confiança e engasgando de tanta vontade de experimentar coisas novas e excitantes. Eu achava que, ao superar o medo do desconhecido, e ao encontrar forças para fazer algo completamente diferente de qualquer coisa que eu já tenha feito antes, me libertaria de todas as outras pequenas folbias neuróticas.

Eu estava errada.

A cada passo da minha jornada eu encontrei algo novo e aterrorizante – das víboras venenosas dormindo no lado de fora da minha barraca na  floresta de Borneo, ao fato de escalar o topo de yvulcão irritado e cheio de fumaça e espiar dentro da cratera em Java. Desde pisar na minha primeira moto e sentir o empoderamento tomar contar do meu corpo assim que eu pilotei por entre camninhos sujos no norte do Laos, a testemunhar as exóticas mulheres  de longos  pescoços de tribos nas montanhas da Tailândia.

Eu pensei que poderia fazer um excelente avanço ao conquistar todos os meus medos e seguir adiante; ao invés disso, viajar me fez perceber que você precisa enfrentar cada pequena batalha uma de cada vez, avançando pequenos passos em direção ao seu precipício do medo e você não tem outra opção senão pular.

Enfrentando seus medos

Não é fácil encontrar forças para fazer coisas que te aterrorizam – é uma batalha constante entre a voz da razão e os demônios que fazem seu estômago revirar. Mas de alguma maneira, estar tão  longe de casa, tanto emocionalmente quanto fisicamente, torna isso possível. Já ter feito algo tão  irracional como desistir de tudo que eu conhecia e possuía, deu oportunidade para que a voz da razão usasse de um excelente argumento:

“Por que vir até aqui só para assistir?”

Se você permitir, viajar pode te dar o empurrãozinho que faltava para você fazer coisas que nunca imaginaria fazer. Quando você está na zona de conforto do seu lar, a probabilidade de fazer algo assustador não soa muito tentadora, você pode encontrar desculpas com facilidade, você pode dizer a si mesmo que tem coisas melhores para fazer, você pode procrastinar até que as oportunidades murchem e se dissipem. Mas para mim, estando do outro lado do mundo e rodeado pelo desconhecido, dar o salto além é praticamente obrigatório, porque se eu não der, como é que vou justificar tudo o que eu deixei para trás para estar neste lugar, neste momento?

Para algumas pessoas aquele momento pode ser olhar para o céu antes  de pular do avião, outros sentem arrepios na espinha quando estão diante de comidas estranhas e exóticas, para mim, foi quando eu estava olhando para dentro do mar azul e praticamente mergulhei de cabeça.

Ver um mundo diferente

Enfrentar meus medos foi um presente maravilhoso. O presente de ver um peixe que parecia um arco-íris, cintilando em tons de cores iridescentes. O sentimento de estar maravilhada com um peixe rajado de amarelo e preto nadando como um tigre em meio ao recife de corais ao meu entorno, com tartarugas marinhas gigantes nadando diante dos meus olhos incrédulos.

Quando eu mergulhei a cabeça na água eu fui apresentada a um novo mundo – onde peixes podem parecer tigres e onde arco-íris sabem nadar. Quanto mais medos que eu enfrentava, mais a minha vida parecia uma sequência de presentes que me eram entregues. Eu tenho visto e feito mais que eu poderia imaginar que seria possível – mas o melhor presente de todos é que, para mim, cada parte do meu ser se sente vivo.

Texto traduzido por Laryssa Caetano, original no Vagabondish

 

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Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

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