Encontrando a virtude no caos nosso de cada dia

Viajar e mudar de cidade me faz sair da zona de conforto e encarar desafios antes inexistentes. Explico. Quando você está no mesmo lugar sempre, tem família e amigos e caminhos mentais já bem solidificados do que fazer, quem procurar, em caso de SOS. Quando se está fora, a história muda, os relacionamentos são recentes e ainda em fase de solidificar, então, quando algo mais sério acontece é que eu percebo o quão diferente é estar longe de casa.

Ontem, por exemplo, acordei mais cedo que o normal e fui trabalhar mais cedo que o normal. A manhã foi de trabalho externo e, apesar de ter me divertido horrores, passei muito calor. Daí foi o clique para a “crise”. Tenho síncope vasovagal, que é uma peculiaridade muito inconveniente que me causa mais embaraços na vida do que preocupação médica. Veja bem, isso ainda não é a história, mas prometo que os pontos serão conectados no fim de um longo texto.

Corta. Eu sempre aviso meus colegas de trabalho e pessoas que convivo intensamente desta condição, que posso desmaiar e tals. Como minha irmã diz: o sistema trava, você dá erro 404 e reinicia. É basicamente é isso. Vida que segue.

Como a crise me seguiu ao trabalho, meus colegas me levaram para tomar soro, mesmo sob meus protestos super convincentes (eu não falava coisa com coisa haha). E lá fomos os três para o pronto-socorro. E eu não sou fã de hospitais. Nada contra, só vou em casos extremos, já que não tenho lá as melhores experiências nesses lugares, como meu caso está longe de ser grave, fico no fim da fila passando mal sentada, quando tudo o que preciso é deitar e beber gatorade quietinha.

Ontem foi diferente. Escoltada pelos meus colegas fui passando etapa a etapa, avançando no videogame dos procedimentos médicos com a fluidez de uma sinfonia: preenchimento de ficha – perguntas sobre os meus sintomas – avaliação de pressão e glicose – deitar na cama – e tomar o tão esperado soro na veia. Alívio.

Quando tenho essas crises, sinto que estou derretendo (e vou escorrer pelo ralo) enquanto meu coração acelera, o mundo gira em volta e escurece. E com o soro, gota a gota, ml a ml era uma melhora significativa neste quadro de lezera. Os colegas se foram para dar espaço para a minha nova companheira, também do trabalho. Pela nossa alegria e decibéis nas risadas, parecia uma noite do pijama. Glicose, glicose, glicose.

Depois deste preâmbulo é que o ápice da história aconteceu: uma moça deu entrada na cama ao lado, acompanhada por dois policiais. Ela havia sofrido um acidente de trânsito e estava visivelmente confusa e a dupla de PM não saiu do seu lado enquanto não conseguiram ajudá-la: conversando com toda a calma e mansidão que uma pessoa poderia ter, eles explicaram o que havia acontecido, localizaram a família por telefone, informaram que ela estava bem. Cuidaram dos pertences da moça enquanto era atendida e, quando a família chegou, assustada, os PM continuaram a acalmá-los, na voz mais doce e mansa possível, explicando o acidente e como todos os envolvidos haviam saído ilesos. O carinho daqueles caras transbordava na sala, não era só cumprir o dever, era a manifestação de valores pessoais deles no trabalho, no cotidiano.

Esta é a dupla super tímida de policiais que atendeu a moça.

O mesmo eu posso dizer dos meus colegas que, mesmo super TODOS ocupados, eles se juntaram e se revesaram para me ajudar. O mesmo eu posso dizer da equipe do hospital. O mesmo eu posso dizer dos amigos que fiz neste último ano: ao me perguntarem para quem eu poderia ligar, eu pensei em todos os meus amigos que fiz nesta terra (e uns que já herdei de tempos antigos) e travei. Diante desse buffet de pessoas incríveis eu não sabia quem escolher primeiro (e vá lá, eu tava pra lá de bagdá, raciocínio lógico estava longe de ser um dos meus pontos fortes naquele momento) pois sabia, de fato, que todos poderiam aparecer ali 

E, se você chegou até aqui, gostaria de dizer que, muitas vezes eu vejo as coisas ruins, as dificuldades, o caos. E isso me paralisa. Mas daí, esses momentos me lembram que flores nascem em desertos, que árvores nascem em penhascos e que Deus, na sua infinita bondade e graça, nos atesta do seu amor nos detalhes da vida, nas dobras, nas costuras e, principalmente, nos rasgos. Os grandes momentos podem ser marcantes, mas a vida acontece no dia a dia e nós podemos ser versões melhoradas de nós mesmos todos os dias e isso deixa marcas, como um abalo sísmico, capazes de transformar o lugar onde estamos.

Se eu não tivesse vagovagal não teria testemunhado tudo isso hoje e todo o restante. As nossas falhas podem ser ferramentas úteis para lapidar o caráter e nos dar uma perspectiva correta de dor, gentileza e realidade.

Estar longe de casa me deixa mais vulnerável do que eu estou acostumada, entretanto, percebo que é quando fico sem o casco da segurança é que cresço, é que tenho experiências sensacionais, é que vejo o mundo com outros olhos.

Sobre o vasovagal, você encontra mais informações aqui:https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADncope_vasovagal Sobre gentileza e experiências transformadoras, você pode encontrar o mais próximo de você do que imagina. 😉

Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

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