Reflexões de viagem: o dia que o Google não reconheceu garotas estudiosas

Este post é um pouco diferente dos que costumo escrever para o Viajar eu Preciso, mas acho o tema relevante e, por estar relacionado indiretamente às experiências de viagem, então tá valendo. Mas já aviso de antemão que ele é recomendado para menores de 18 anos. Obrigada!

Tenho pensado um bocado sobre adolescer. Como analista de SEO e, entre outras coisas, eu gasto muito tempo no buscador do Google e nesses dias eu esteja envolvida especificamente com o público juvenil. O que eles leêm, que assuntos se interessam, o que os preocupam nessa idade no limiar da vida adulta?

Percebi que há muitos blogs de moda, maquiagem, estilo, relacionamento, viagem (mea culpa), lifestyle e filmes, mas muito poucos sobre aspirações, sonhos e sobre como ser o protagonista da própria história. Fiquei bastante incomodada como falamos muito sobre as mesmas coisas e como elas são fugazes e acrescentam muito pouco à nossa essência.

Quando estive na primeira vez na Alemanha eu fiquei impresionada como as mulheres são básicas: praticamente sem maquiagem, roupas muito simples e pouca preocupação com a moda. Conforto era a palavra de ordem.

Naquela cultura tão distinta da minha eu tive algumas das conversas mais enriquecedoras sobre a vida, sobre sobre cultura, sobre política, sobre ser. Lembro de outro tempo, na faculdade, de uma professora que falava que, às vezes, bastava um rostinho bonito para aparecer na TV, mas o trend passava e em alguns anos muitas daquelas pessoas eram rebaixadas a celebridades esquecidas e pobres. Eu não precisava estar na universidade para ouvir isso, mas bem, essa é a história.

Quantas vezes se conversa sério, sem falar no clima, sem falar mal de ninguém, falando de sonhos, aspirações, aquisições de coisas concretas e etéreas? Você já pensou em um dia visitar qualquer lugar que você estuda nas suas aulas de História? Ou conhecer algum autor 5 estrelas que seu professor citou na aula outro dia? Já pensou que os livros podem ser a fagulha que te instigam a ir além?

Não é de estranhar que ao procurar por “garotas estudiosas”, o Google me deu a sugestão de “garotas estilosas”, pois não apareceu nenhum resultado sobre estudar, sobre personalidades inspiradoras, sobre dicas ser alguém, tornar os sonhos realidade. NA-DA.

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O que o Google tentou me dizer foi mais ou menos isso: “você tem certeza que a sua busca está correta? Pois os meus resultados apontam para esse tipo de conteúdo, mas não exatamente para o termo que você está buscando.”

O que isso me diz?

Que há muito barulho sobre ser mulher, sobre o que usar, sobre Escola de Princesas ser o fim da picada e blablablá e muito pouco sobre coisas que fazem a vida realmente mudar.

Estudar, guéuss!!

Não é só falar de batom novo, cabelo novo, look novo, selfie nova. Apesar de amar tudo isso, acho que a internet tem muito espaço para falarmos das coisas que realmente importam e, se vamos realmente falar sobre empoderamento, então meninos e meninas com menos de 18 estudem, na boa! Convoco vocês a realmente buscarem a diferença na própria vida.

Sua amiga cool pode ser super legal, mas fazer competição de quem tem o boletim mais binário (zero-um-zero-zero-zero) como ouvi outro dia na rua, não vai tornar nenhuma das duas em uma pessoa que faz as próprias escolhas.

Eu sei que falar sobre livros, filosofia, religião não te torna a pessoa mais popular, mas te coloca em contato com gente que também tem sonhos altos. Nerds não são só aqueles que gostam de Star Wars, mas principalmente os super fãs de matemática, de astronomia e que surtam com a ideia de serem aceitos em universidades bem conceituadas.

Saber que existe um mundo grande lá fora, com problemas reais, com lugares lindos é enriquecedor, mas de que vai adiantar ir se for apenas para tirar uma self no Muro de Berlim sem considerar…? Bem, sem considerar. Estudar não só para passar no ENEM, mas para estudar fora do país, por que não? Estudar para fazer qualquer coisa não só para passar de ano.

Não estou dizendo que não existam gurias super estudiosas, só digo que a busca no Google é baixa para o termo (e termos relacionados) e isso indica certa tendência. As conversas que escuto no ônibus demonstram certa tendência, assim como a timeline de adolescentes que conheço.

Lembram da vencedora do Oscar de melhor figurino este ano? Então, em um mundo onde vestidos de gala chamam mais atenção que o Oscar, não é à toa que a frivolidade do (A)PARECER chame mais a atenção do que o SER.

Ela levou o Oscar por melhor figurino, mas só o que se falava era sobre a roupa dela. Sério mesmo?
Ela levou o Oscar por melhor figurino, mas só o que se falava era sobre a roupa dela. Sério mesmo?

Se eu posso dar um conselho a vocês seria: estejam mais preocupadas em ganhar o Oscar da vida do que estarem bem vestidas para todas as ocasiões e saírem com as mãos abanando todas as vezes. Seja a pessoa que leva o Oscar. Não seja aquela que o único assunto é falar mal da roupa da vencedora.

Das pessoas bem estilosas que deram uma olhadela - quem levou um Oscar?
Das pessoas bem estilosas que deram uma olhadela – quem levou um Oscar?

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UPDATE: talvez por conta do ENEM, mas hoje fiz a busca de novo e já existem respostas compatíveis com o termo, inclusive imagens. Isso é um bom sinal!

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Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

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