Lições para vida que se aprende viajando

Lições da vida aprende viajando

Viajo sozinha ou quase sozinha desde os 11 anos e, todos esses anos acabei aprendendo muita coisa que só acrescentou às experiências de viagem. A minha primeira lição foi com as poltronas: evite poltronas próximas ao banheiro, em cima do amortecedor do ônibus, no lado esquerdo do ônibus (à noite, pois a luz dos carros na contramão atrapalham muito o sono) na asa do avião ou na divisa de classes (onde as poltronas não são reclináveis). Depois, eu diria que estar descansada faz toda a diferença, pois você nunca sabe quem vai do seu lado (dicas para as viajantes).

Aprendi que não importa quantas vezes eu escove os dentes na viagem, ainda vou sentir eles sujos. O mesmo vale para cabelo – posso ter lavado antes de viajar, quando chegar eles estarão bleeeergh. Sobre higiene coletiva no ônibus/avião, eu aprendi a respirar pela boca por longos períodos. Sobre minha higiene pessoal, eu aprendi a levar um camiseta extra para viagens longas. E lencinhos umedecidos.

Aviões e ônibus são lugares ótimos para ser ouvinte das pessoas: eu aprendi sobre tantas vidas, tantas formas de pensar, tantas experiências e motivos de estarem no mesmo lugar que eu e, que em poucas horas nossas vidas iam tomar rumos tão distintos. Mas naquele momento nós éramos velhos amigos rindo das piadas, compartilhando histórias, remédios, comida… e nem sempre precisávamos falar a mesma língua.

Por mais que eu deteste bater nessa tecla, alguns cuidados mínimos de segurança podem te livrar de altas: bolsa sempre presa ao corpo ou no canto da poltrona, de preferência com as alças complicadamente enroscadas no seu braço. Bolsos internos em jaquetas são bem vindos. Agora sim, durma bem.

Aprendi que companhias de ônibus de viagem DEVEM ter um pacto do mal com a indústria farmacêutica ao fomentarem a venda de remédios contra enjoo, pois o desinfetante que usam no banheiro com cheiro de TUTTI FRUTTI é pracabá com os pequi do Goiás! E graças a esse lobby, descobri que uma casca de laranja ou limão fazem milagres com os estômagos mais sensíveis – basta inalar o cheiro durante a viagem, na ausência de “anti-enjoo”. Testado e aprovado.

Bateu a fome? Só coma onde o motorista comer, eles sabem os melhores lugares de almoçar. O mesmo vale para viagem de carro: só almoce em restaurantes em que há caminhoneiros ou ônibus estacionados. Motoristas são o Inmetro da comida de estrada e pipi-stops. Qualidade garantida.

Não existe bagagem delicada, ela será sacudida, espremida e chacoalhada mais que multidão em show de rock. Roupas confortáveis nem sempre são bonitas, mas depois de 14 horas de viagem você só vai querer um pijama, então está tudo bem. Aprendi a evitar calças que tendem a cair ou tenham o cós baixo, pelo motivo óbvio de pagar calcinha enquanto dorme, nunca viajei de saia/vestido e prefiro viajar com sapatos fechados. Também não gosto de viajar com brincos ou colares pois eu durmo tipo o Sid e as chances de enroscar na poltrona são grandes.

Ônibus são como desertos: calorentos durante o dia e congelantes durante a noite (sério que ninguém regula o ar condicionado?) então, meias grossas e/ou saco de dormir são excelentes amigos para uma noite de sono confortável. Óculos escuros, boné e fones de ouvido espantam pessoas a fim de bater papo enquanto você quer dormir.

Aprendi que os botões das poltronas dos ônibus só servem para te beliscar a viagem inteira. Sem mais. Travesseiros só servem para bater na cabeça das pessoas enquanto cruzo o corredor e para disputar o espaço estreito da poltrona comigo. Vira e mexe me estranho até com travesseiros de pescoço, pois ou eles empurram minha cabeça para longe do encosto ou meu pescoço fica escorregando pelo vão. Fight na certa.

Aprendi a levar minha própria bagagem, o que significa que ou preciso ser mais forte para aguentar mais peso ou limitar a bagagem ao meu físico atlético #sqn Sério, já viajei com pessoas que achavam que todos e qualquer um eram responsáveis para remover o defunto que trouxeram no bagageiro. Minha maior lição disso foi quando, indo para praia eu levei meu guarda-roupa inteiro e tive que conviver com aquele monte de roupa inútil atravancando o espaço no porta-malas compartilhado (eu sei, shame on me, foi a segunda vez que viajei de férias na vida). Dali em diante eu decidi que mala só o necessário.

 

Roupas de viagem precisam ser versáteis, fáceis de lavar e de secar. Ponto. Nada de coisas que precisam de manutenção ou muita firula, na mala vai tudo e eu gosto de imaginar que tudo estará em perfeito estado quando eu voltar. Nem sempre é assim, mas dá para me precaver.

Meias, por exemplo, são excelentes peças para preencher vazios e imobilizar/amortecer itens mais delicados como vidro. Echarpes também. Aliás, echarpes são peças super coringas (posso falar disso com detalhes em outro post), mas basicamente elas complementam qualquer look sem graça, aquecem o corpo para aquele friozinho despretensioso e viram turbantes em bad hair days. Eu me cubro com elas para dormir, estendo no chão para sentar e até uso como toalha de mesa se for necessário.

Aprendi que não é a distância percorrida ou o destino, viajar é um estado de ser. Para mim é me permitir o novo, novos lugares, novas experiências, novos jeitos. É desapegar um pouco de mim e enxergar os outros. Para mim é um exercício, seja indo para Piraputanga ou Berlin.

Sempre me considerei uma viajante que a vontade batia latente no peito e as oportunidades pareciam se afastar, aprendi que viajar significa desprender, inclusive do medo do desconhecido.

OBS: eu queria que o post desse cara estivesse impresso em todos os ônibus da América Latina e fosse entregue a todos os passageiros que fumam, bebem, falam alto noite adentro e fazem todas as coisas listadas lá.

Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

2 Replies to “Lições para vida que se aprende viajando”

  1. Aprendi com as pequenas dicas /detalhes. Baum.

  2. […] lições para a vida, viajando. Sejam lições para as próximas viagens ou para a vida em si. Eu já falei das lições que aprendi nos quase 20 anos que viajo de bus/avião e como tornar o trajeto em um momento com mais […]

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