Post de aniversário para mim mesma, aos 18

Carta para mim mesma aos 18

Hoje fiz 29 anos.

Depois desses anos todos, estou perita em crises e acho que vou passar por muitas outras na vida. Aos 15 passei pela crise de identidade. Aos 18 passei pela crise do vestibular. Aos 24, a sensação de vazio e nenhum caminho a seguir depois da faculdade. E agora, os 29.

Não sei bem se é a mesma crise que foi mudando de roupa com os anos ou se antecipei a crise dos 30, mas é bem verdade Laryssa que aqui nós estamos de novo. Minha querida, eu queria poder te abraçar aí aos 18 e dizer que a sua vida tem um rumo diferente daquilo que você imaginava e um ritmo bem mais lento daquilo que você sonhou.

Consigo ver sua cara de decepção em 3,2,1…

É mais lento porque a vida passa depressa, Larys. Não sei se posso te pedir para largar de ser ansiosa, pois até hoje convivemos com os sintomas, apesar de não roer mais as unhas tá, às vezes. Eu sei que essa inquietação me serviu de trampolim hoje, mas ao mesmo tempo eu queria muito que você vivesse aí e agora. Nada de prospectar o futuro, pois nós duas sabemos que somente a Deus pertence. Faça a sua parte e deixe o rio correr o curso. Eu queria que você estivesse lido (não lembro agora se Paul Washer ou C.S. Lewis) que viver é fazer a nossa parte e confiar que Deus vai definir o caminho, as pedras, as subidas e descidas.

O ritmo lento faz você ter mais tempo para refletir, para colocar seus projetos pessoais em dia.

Abrace essa inquietação de uma maneira positiva, sem sofrer. Eu sei que você se sente deslocada, mas você vai se achar e vai se importar muito pouco por continuar se sentindo on the road. Mas tenho boas notícias, nós viramos um caramujo: se nos sentimos deslocadas, a nossa casa é onde estamos agora. Foi um jeito meio macarrônico que a gente encontrou para desligar do futuro desconhecido e viver mais no presente.

Bom, já que estamos colocando o papo em dia, preciso te dizer o seguinte: nós estamos cuidando da alimentação, ouviu? Finalmente conseguimos dar o start!

Nós pedalamos

Menos do que eu preciso e mais do que eu poderia um dia imaginar. Você ganhou coragem, perdeu a vergonha e foi pedalar, inclusive pro trabalho. A ideia é viajar de bike ainda este ano, blz?

Nós temos menos medo do mundo

Chegou um momento em que o velho ditado “não converse com estranhos” foi por água abaixo. Conhecer gente nova começa conversando com estranhos. Mantenha o alerta de segurança ligado, confie no seu instinto e é isso. Vai ter um momento na sua vida que você estará “presa” em La Paz por conta de um bloqueio de-to-das as estradas ao redor da cidade, e você precisa voltar para Cochabamba. Você senta pasma, pensa o que fazer, a bateria do celular está acabando. Você pede a Deus uma solução e, eis que a mulher do guichê – que você tinha dado bom dia antes – fala que tem ônibus saindo por rotas alternativas da cidade. E você se vê seguindo a mulher por ruelas até um ônibus escondido lotado. Trocentas horas depois você chegou ao seu destino final sã e salva. E feliz por ter vencido o medo. Viajar também é isso.

Nós viajamos sempre que dá

Bom, você ta lendo isso no seu blog de viagens, ouviu? Tanta ralação, sonhos e um desejo inesgotável de sair continuam batendo latentes dentro do peito. Dá uma lida nos posts da Bolívia, Alemanha, Argentina e Uruguai (não sei se tenho as fotos do Paraguai ainda).

Nós temos poucas coisas

Cá entre nós, esse seu quarto é uma bagunça! Se livre de umas tranqueiras aí, tire um fim de semana para limpar o guarda-roupa, a estante de livros (sim, nós nos livramos desses livros velhos, não adianta protestar!) e seus itens de papelaria. Boa parte deles vai ser doado mesmo na sua primeira mudança à trabalho. Então, poupe o meu esforço 😀

Sério, a sensação de ter menos é libertadora. Possuir menos nos deu mais qualidade de vida, uso de recursos e uma sensação de que é possível ser versátil com uma mala pequena.

Nós somos de direita

Olha, aqui a conversa é longa, mas está bastante relacionada ao próximo tópico y otras cositas más.

Nós não somos hippies

Essa inquietação que você tem e esse desejo de estrada não é necessariamente via hippie style que você vai resolver. Acho que a gente se acostumou a ser outsider de um jeito que convivemos bem com os insiders e temos nosso mundinho da lua. Simples assim.

Não faça essa cara de “como assim não somos hippie??” porque é a verdade e você vai gostar disso. Seu estilo de viver, de vestir, de encarar a vida nem encosta perto do jeito hippie. Se te faz feliz, nós somos meio mochileiras viajantes. E aí, valeu a troca, né?

Não fizemos nenhuma tatuagem

Ah, desistimos de fazer tatuagem, por um monte de motivos que eu posso elencar pra você em tópicos:

1 – é caro e você prefere usar a grana para outras experiências marcantes, tipo, viajar

2 – é desnecessário: sério, pense a respeito, por que você aos 18 quer fazer uma tatuagem? Enviar uma mensagem para o mundo? Lerry, na boa, o mundo não se importa com esse tipo de mensagem. É um estilo, e não é o seu. Aceite isso. ¯\_(ツ)_/¯

3 – é química pura no seu organismo (e eu sei o impacto disso nas suas convicções de saúde)

Ah, e vá lá, você encontrou outras formas de marcar a passagem de tempo: esquecendo boa parte das coisas hahaha Sério, eu percebi que meus gostos são muito voláteis, eu detesto roxo até hoje por conta dessa parede aí do quarto que você insistiu em pintar pela segunda vez de um roxo ainda mais roxo. Então imagina uma tatuagem que eu vou ter que conviver com ela forever. Sério, isso não vai rolar.

Nós temos poucos amigos, mas boa parte, de longa data

Sim, a gente conhece gente pra caramba, o que é super legal. Mas amigo tipo brother mesmo, você sabe, são uns poucos, desses a gente conhece pra mais de 8 anos. Alguns você ainda não conhece, outros você sabe de quem eu to falando 🙂

Nós lemos menos e assistimos mais filmes

Olha, tenho que admitir, nem tudo são flores. Eu invejo a sua disciplina e dedicação com os livros, mas a gente está num ritmo ainda mais acelerado do que eu gostaria, então o tempo é limitado. Tenho tentado me inspirar em você para retomar aquele ritmo, largar filmes e séries de lado e engatar em livros tipo Walden, Into the wild e White Fang. O bom que é que já temos uma lista a seguir.

Quero reaprender com a sua experiência a colocar a leitura em dia enquanto te ensino a se desafogar da rotina. Ainda hoje colho frutos desse atropelo que você vive. Faz um favor para você mesma: concentre-se em poucas coisas, conclua e depois parte para o resto da lista. A gente agradece.

Nós temos poucos planos

Os planos são bons quando são possíveis de serem executados e não só idealizados. Você vai acabar aprendendo que, tem coisas que é preciso abrir mão. Frustração faz parte da vida e a gente precisa conviver com ela. A dor também molda nosso caráter, não se feche para isso.

Você aceita quem eu sou hoje

Acho que a maior conquista é que hoje você olha no espelho e diz “ok”. Ok para os cabelos brancos, para a buchecha gordinha – em fase de enxugamento, para o dente da Mônica e para os cabelos cacheados. Você tem orgulho de quem é, da saúde de ferro que tem – apesar das alergias, e está tudo bem. Mesmo.

Apesar dessa carta ser um puxão de orelha, Larys, eu realmente gostaria de ter uma conversa franca contigo. Eu estou feliz, com muitas lutas a serem lutadas, muitos 7 x 1, mas essa é sua vida e não tem como você fugir dela. Pessoas e experiências transformadoras te aguardam nessa jornada. Saia do condado, vá viver uma aventura na Terra Média!

Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

4 Replies to “Post de aniversário para mim mesma, aos 18”

  1. Que orgulho desse blog, meus olhos brilham.

    Me sinto como se eu tivesse plantado uma fruta que não gosto (imaginando que em alguns anos as coisas mudariam e eu comeria o fruto), mas os anos se passaram e eu continuei não gostando, aí encontrei alguém que ama e entreguei pra pessoa certa desfrutar e continuar cultivando <3

    Obs.: Adorei o texto 🙂
    Obrigada

    1. Ounnn Ari!!

      Brigada pelo blog… fazia tempo que eu ensaiava um assunto ou outro e sempre esgotava, finalmente o assunto que eu sempre quis escreve e nunca imaginei ter um blog a respeito, caiu no meu colo! Bjs
      Então, estou ajustando a linha editorial aqui, tive que dar o meu próprio braço para torcer hehe

  2. A Larys de 18 anos não entenderia a referencia dos 7X1 ahahaha

    1. Ela não entendia 90% das coisas, estaria me questionando até agora um monte de coisas… o 7×1 ia ser o menor dos meus

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