Santa Cruz de la Sierra: pessoas amigáveis e comida boa

Basílica de San Lorenzo - Santa Cruz de La Sierra

Entre Campo Grande e Machu Pichu, há uma rota cheia de cidades interessantes e alguns pontos de parada para restabelecer as energias para a próxima aventura. Campo Grande é um desses pontos, Santa Cruz de la Sierra é o outro. A cidade tem quase 2 milhões de habitantes, foi fundada em 1561 e antes das 7am é completamente silenciosa e, barulhenta na mesma proporção assim que toca o sino das 8am, quando abre o comércio.

Daí nada para. As pessoas circulam pela praça, pelas ruas, a pé, de carro, de trufe, de ônibus. Táxis buzinam sem para para pedestres, que podem ser potenciais clientes.

Santa Cruz de La Sierra - centro histórico

Como chegar lá desde Corumbá

Chegando em Corumbá de ônibus você pode pegar um ônibus em frente à rodoviária, desça no terminal e pegue o Fronteira (102). Cada passagem custa R$ 3,25, tem gente que prefere ir de mototáxi e pagar +_ R$ 10, de táxi custa R$ 60.

Na fronteira não funciona celular, então não espere confiar no GPS. Mas olha, não tem mistério: você dá a saída na PF, cruza a ponte, dá entrada na Bolívia (com a devida vacinação de febre amarela em dia!) e pega um táxi por +_ R$10 para a rodoviária ou, se preferir, para a ferroviária.

Eu fui de ônibus desde Puerto Quijarro e paguei 70 bol por uma passagem leito individual. A grande sacada é comprar a passagem no mesmo dia, cedinho, pois o valor das passagens variam com oferta e procura (o que bem interessante se pensar que o país tem uma pegada mais socialista e se utiliza muito bem dessa premissa capitalista). Fui sozinha em uma poltrona espaçosa e reclinável, com direito a filme de ação francês. São cerca de dez horas de viagem até o terminal Bimodal de Santa Cruz. Tanto quem vai de trem quanto quem vai de ônibus, chega lá. Por recomendação de um amigo (valeu pela dica Renê!), escolhi uma das companhias de ônibus que ele sugeriu: Transbioceânica, Idi Suarez ou Baruc.

Dormi bem no ônibus, acordei só uma vez com crianças vendendo lanches em uma das paradas. Era de madrugada e as crianças estavam ali, vendendo snacks. Dá uma sensação tão estranha ver aquela gurizada empoeirada, brincando entre si e trabalhando tão tarde. Qual será a condição em casa que as leva a trabalhar naquele horário? Apesar da pena, por outro lado pensei que talvez houvesse nobreza naquilo, afinal, apesar da pobreza extrema, essas crianças estavam trabalhando dignamente, não estavam se prostituindo ou coisa do tipo. Sei lá, esse pensamento parecia fazer sentido naquela hora.

Na rodoviária peguei um táxi até o centro por 25 bol, depois descobri que há ônibus circulares por 2 bol fazendo o mesmo trajeto. São as linhas 33, 85, 50 e 20.

Basílica de San Lorenzo - Santa Cruz de La Sierra

Santa Cruz de La Sierra por si mesma

O centro histórico é resultado de uma mistura de prédios coloniais de pedra, ornamentados com marquises de madeira nas calçadas e prédios modernos. Localizado no primeiro anel, o centro histórico têm ruas estreitas e movimentadas e onde as buzinadas são de taxistas oferecendo corridas.

A cidade é separada por zonas ou anillos, sendo o primeiro, o mais central e o mais antigo. Confesso que, os quatro dias que estive na cidade, não tive muito o que fazer, já que eu não estava disposta a ir a shoppings e, os museus não eram tão interessantes. Mas talvez fosse exatamente isso que eu precisava em Santa Cruz – nenhum compromisso com nada, poder fazer nada em paz e descansar sem culpa.

Apesar do marasmo, eu gostei de Santa Cruz, talvez exatamente por isso. Eu queria descansar sem compromisso de estar perdendo lugares para visitar. As pessoas foram gentis, a hospedagem foi barata e a comida é boa. Talvez seja parte do meu dna hobbit, mas eu me senti bem lá. Pude provar da hospitalidade e da generosidade bolivianas mais uma vez.

Há quem diga que o melhor café de Santa Cruz está aqui. Aliás, no jardim do Café Patrimônio funciona um museu aberto ao público.

Primeiro porque cheguei cedinho e, depois de ter feito a reserva no Booking no hostel Bed & Bar Backpackers  gastei R$ 82  por quatro noites em uma cama em quarto misto, com direito à café da manhã e um atendimento maravilhoso dos gerentes. (abraço Luis Fernando!) Chegando lá, não percebi que o endereço do hostel tinha mudado para o prédio em frente e, sem internet, fui caminhando nas redondezas atrás de outro hostel.

Gastei algumas horas caminhando de um lado para o outro conhecendo albergues horrorosos e hotéis fabulosos, nada entre eles. Desanimada, pensei que talvez passaria o dia na rua, caminhando aqui comendo ali e voltaria no ônibus noturno. Meu esperado feriado em Santa Cruz iria pros quiabos.

Quando eu pensei em me desesperar lembrei de todas as outras vezes que estive em situações de possíveis perrengues e como tudo correu bem conforme o seu curso, graças a Deus. Parei em um café lindo, cheiroso, bem decorado que estava aberto logo cedo: o Café Patrimonio. Larguei a mochila de um lado, pedi café (porção generosa, ufaa!) e zonzo, uma panqueca de mandioca e queijo feito na chapa. Fazia três anos que eu esperava comer isso de novo.

Sonso de Mandioca - Café Patrimônio

Com wifi consegui acessar minha reserva e enviei mensagens para o hostel. Nada. O gerente do Café (valeu Michael!) se prontificou a me ajudar e logo descobri que o hostel estava no lugar que deveria estar. A ligação do Michael salvou meu feriado.  E isso era ainda 9 AM e eu já estava alimentada e feliz da vida com a ajuda inesperada.

Café Patrimônio - Santa Cruz de La Sierra
Café Patrimônio: estilo é pouco!

Depois que cheguei no hostel, tive meu segundo grande momento da hospitalidade boliviana: o Luís Fernando se desculpou pela confusão e durante toda a estadia ele estava ali pelo balcão fornecendo orientações da vizinhança e lugares que valiam a pena visitar.

O hostel é novinho e cheiroso. Fiquei em um quarto com quatro beliches, guarda-roupa, ar condicionado e banheiro com água quente. O café da manhã é servido em uma bandeja com pão e ovo, frutas, granola e o café é livre. A única coisa que não gostei é que, como eu passei um dia preguiçoso na cama, eu pude ouvir todo o barulho da rua e o sino da igreja ao lado. Nos outros dias que eu aparecia no hostel só para dormir à noite esse fato não incomodou. Então, eu recomendo o Bar & Bed Backpackers! O Fernando conhece muito bem a região e dá excelentes dicas de roteiros turísticos, alimentação e transporte barato.

Bed & Bar Backpackers - Santa Cruz de la Sierra

Pela segunda vez em uma viagem curta pela Bolívia, desta vez eu sinto que foi a minha redenção com este país incrível. A primeira vez, há três anos, eu fui cheia de medos e com vontade de superá-los, agora eu pude simplesmente estar no lugar sem precisar enfrentar nada. Eu andei para todos os lados, saí com gente nova, desbravei. Até comida de rua eu comi e não passei mal. #feelinglikeawinner

No primeiro anillo, as lojas vendem tudo em dólar, talvez por ser uma parte rica da cidade, mas achei estranho ver vestidos simples por 40 US$, sem nem constranger a atendente. Talvez a minha imagem de que tudo é barato na Bolívia seja parcial ou talvez o câmbio agora seja mais favorável para eles, R$ 1 = 2,15 bol.

A cidade em si não oferece muitas perspectivas de passeio, e na Páscoa as opções ficam ainda mais restritas. Descobri, exatamente neste feriado, que esse pedaço da Bolívia é bastante católico: bares fechados, supermercados com restrições de venda de álcool.

Consegui um mapa no hostel e passei o dia no Jardim Botânico da cidade, que custa 10 bol e oferece área de camping e churrasco, lagos, jardins diversificados e uma trilha com mosquitos (que eu não sei pra onde leva). Acredito que o parque tenha mais atrativos do que pude perceber, mas a falta de placas e a ausência de guias atrapalhou um pouco.

Apesar do balanço geral não envolver muita atividade e passeios incríveis, Santa Cruz é uma cidade para voltar, principalmente pelo custo e por estar perto de Samaipata, San José de Chiquitos, Parque Amboro e Chochis, além de ter voos diretos para La Paz. Em Santa Cruz a Bolívia começa a se desdobrar em mil facetas e a cidade em si é um mero detalhe.

 

 

Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

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