Vida de viajante é para qualquer pessoa?

Cartões postais na parede

Em minhas andanças pelo mundo me deparo com frequência com pessoas que se sentem frustradas por terem uma vida “comum”, que dizem ansiar por uma vida mais como a minha.

Você vê depoimentos de nômades digitais e se pega desejando largar a vida do seu trabalho registrado, de uma rotina, de seguir os mesmos caminhos. Vê as fotos lindas, a flexibilidade, o glamour de conhecer o mundo e fica pensando que essa é a vida que você quer.

Nesse momento eu te pergunto: é mesmo o que você quer? Tem certeza? Antes de responder com tanta veemência, é interessante fazer uma autoanálise e se perguntar e entender várias coisas, entre as quais listo a seguir:

 1 – Você é uma pessoa realmente desapegada?

Sua cultura, rotina, língua, livros, sensação de localização e até mesmo sua cama podem fazer mais falta do que você imagina. Faça o seguinte teste: você é o tipo de pessoa que não se importa de dormir dias na casa de outras pessoas e não fica com saudade de casa?

 2- Você odeia verdadeiramente ter uma rotina?

Isso parece ter uma resposta óbvia, mas não tem. É extremamente cansativo reajustar o mindset! Só como exemplo, a cada país que você pisa, é necessário recomeçar toda sua noção de localização, reaprender a tomar transporte público e a fazer compras no mercado (pois muitas vezes você não vai saber o que está dentro da embalagem num idioma complemente diferente do seu). Parece divertido, mas quando a viagem não é em férias, isso toma tempo e bastante energia. Tente se imaginar mudando de forma drástica sua rotina por uma semana – se você vai de carro, tente pegar um ônibus ou bicicleta; se você almoça em restaurante, tente levar sua própria comida; mude objetos de lugar na sua casa – você experimentará de forma bem superficial o que é mudar uma rotina e terá de ver o quanto isso te afeta.

 3 – Você gosta da sua própria companhia?

Já imaginou ter um dia cheio de experiências e ao chegar no local que está hospedado não ter alguém com quem conversar por uma simples barreira linguística? Isso é extremamente comum, sobretudo se você for uma pessoa introspectiva (ou que não fala a língua).

Sim, viajar te faz conhecer pessoas muito interessantes, mas com frequência os vínculos criados são superficiais e em pouco tempo cada um terá de seguir para seu próximo destino. Como você se sente indo ao restaurante sozinho? Consegue desfrutar da sua própria companhia?

 4 – Nem tudo é diversão

Ser nômade digital inclui muito trabalho também, inclusive para sustentar o estilo de vida de viagens que é alto. Isso quer dizer que naquela semana que você separou para conhecer Paris pode chegar aquele(s) projeto(s) urgente(s) que te exigirão 15 horas de trabalho por dia exatamente naquela semana. E ser freelancer não te permite negar tanto trabalho assim pois…

5 – Existe muita instabilidade profissional

Não existe comprometimento de nenhum lado das suas relações profissionais. Você é contratado para fazer um serviço sem que haja necessariamente alguma continuidade. Como você lida com o fato de não existir um plano de carreira bem estabelecido, previdência oficial e outros benefícios?

6 – É difícil estabelecer relacionamentos duradouros.

Principalmente se seu desejo é ficar vários e vários meses longe de seu quartel general aka casa. Como disse antes, você encontra pessoas incríveis, mais geralmente não as conhece profundamente a ponto de tornarem-se amigos ou algo mais.

A intenção desse post não é desanimar você de ser um nômade digital; a intenção é desmistificar um pouco a vida de uma pessoa que opta por ser um.

Viajar eu preciso. Mas será que eu dou conta?

Por Maryssa Caetano

Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

Deixe uma resposta