Festival de gastronomia com sabores do pantanal

O Fegasa – Festival Gastronômico Sabores da Américas é realizado todos os anos em Corumbá, nos últimos seis anos, sempre como parte da programação do Festival América do Sul. Neste formato, com programação própria e nos nos três turnos, é inédito. A proposta do Fegasa é de ser um evento de experiência, não só de degustar o prato, mas de entender que mesmo os sabores conhecidos podem ser relidos, reinventados.

Assim, todos os chefs convidados deveriam apresentar pratos em que houvesse, pelo menos, um elemento da gastronomia regional e que fossem fáceis de ser reproduzidos por pessoas comuns e, porque não, serem comercializados. É um jeito de democratizar a gastronomia e desmistificar a qualificação formal, mostrando que qualquer um pode cozinhar pratos diferentes. Tem um quê de Ratatouille nisso. Teve purê de banana da terra com surtum bovino desfiado na cerveja, focaccia com queijo nicolafrango com guariroba e, pelo menos, mais uma dezena de outros pratos.

Surtum com purê de banana da terra (chef Luís Antônio)

Fernando Mack foi um dos chefs convidados e lançou a frase que, para mim, definiu bem o festival: os melhores chefs ainda não estão no mercado. Seja porque não se consideram bons o suficiente para cozinhar para o público, porque a simplicidade não permite sairem da própria cozinha ou porque ainda estão no pé do fogão aprendendo a cozinhar com os mais experientes. Adorei!

Focaccia de queijo Nicola – isso aqui estava delicioso!

Dos chefs que vieram, alguns já estudavam a culinária pantaneira, cuiabana e fronteiriça. Dedê Cesco, Paulo Machado, Emerson Aguirre, Fernando Mack… Mandioca, queijo caipira, carne seca, peixe e farinha de mandioca são matérias-primas recorrentes. Cada cozinheiro tem uma história que o levou a gastronomia. A maioria chegou à beira do fogão antes do raio gourmetizador invadir nossas timelines e os lanches da esquina.

O legal é poder participar das oficinas e descobrir que, com ingredientes que encontramos na feira, no mercado e que estamos acostumados a comer na fazenda, podem passar por uma repaginada e se transformar em um novo prato. A proposta deu super certo porque as pessoas gostam de comida e, com o advento da TV e seus maravilhosos programas de gastronomia (vide Master Chef, Rita Lobo, Jamie Oliver, Nigella e todos seus discípulos) muita gente que cozinha em casa mesmo, passou a tentar receitas novas, a inovar. Tem muito jedi aí que não se dá conta de que é um. Eu mesma, conheço muita gente que pilota um fogão bravamente e não se considera um chef, mas voltando, o Fegasa deu super certo porque em uma das oficinas, o jogo inverteu – os chefs foram convidados a conhecer a receita super secreta da dona Cida, que faz um bolinho de arroz para vender na feira de Corumbá (MS) aos domingos. Um clássico!

A receita do bolinho de arroz da dona Cida é secreta

E assim, nessa troca de ideias e sabores é que foram as oficinas, com muito bate-papo e novos pratos. Foi bacana participar de um evento que promove o sabor regional e demonstra o poder do tempero de casa nos grandes restaurantes. A experiência única é por demais valorizada e o potencial da matéria-prima gastronômica pode (e deve) ser usado como material de exportação da própria cultura. Neste quesito, Corumbá tira de letra, pois a valorização da cultura regional através da promoção de eventos já faz parte do calendário do município. Eventos culturais e gastronômicos são frequentes na cidade e, valem muito a pena! Com uma identidade cultural marcante, Corumbá é um polo de eventos culturais e tem agenda o ano todo, começando com o carnaval (que é a marca registrada da cidade no Centro-Oeste), festival de pesca, Arraial do Banho de São João, Festival América do Sul, Pantanal Extremo e, a partir de agora, o Fegasa.

É interessante que Corumbá é uma cidade gastronômica, talvez não se dê conta disso, mas é. A comida de rua é uma delícia e a culinária boliviana encosta na comida da fazenda. Os resquícios da cultura portuguesa e colonizadora ainda ecoam nos pratos, na comida da vó. Talvez o próximo passo seja profissionalizar e exportar o tempero local a exemplo do chef caiçara Eudes Assis. Quem sabe, no futuro, os turistas visitem a região a fim de degustar pratos requintados com baru, bocaiúva ou queijo nicola?

Acredito que o sino já tocou perto e uma descoberta curiosa durante o Fegasa foi o chocolate artesanal Angí, que é produzido com sabores regionais: guavira com cachaça, pequi com pimenta, castanha de baru, bocaiúva e banana da terra. A empresa participou da feira expondo o produto, que não preciso dizer que acabou rapidinho. É legal ver esse tipo de iniciativa valorizando e transformando os sabores do mato em algo comercializável. Eu achei demais, pois quando viajo gosto de dar presentes que promovam a experiência sabe? E um chocolate com sabor do pantanal é sensacional! É legal que tem o desenho em relevo de uma árvore de angico no próprio chocolate. Coisa linda e saborosa!

Fegasa 2017 - Angí Chocolate

Bom, o Fegasa já acabou, mas acredito que no próximo ano tem mais. Vale a pena acompanhar o calendário de eventos municipais nas redes sociais: Corumbá Incrível e Prefeitura de Corumbá.

Fotos: Prefeitura de Corumbá / Elis Regina

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Quem escreve 

Tradutora freelancer, assessora de imprensa e fã do ambiente digital. Viaja sozinha desde muito cedo e sempre quis saber onde cada trilha e estrada acabam.

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